Orin: música para os Orixás mostra a riqueza da música tocada nos terreiros de candomblé de Salvador e sua influência na construção da música popular brasileira, a partir de entrevistas com pais de santo, etnomusicólogos, alabês e artistas da cena baiana
O candomblé é uma das religiões de matriz africana mais praticadas no nosso país e ajudou a construir uma parte fundamental identidade cultural brasileira. Alguns dos ritmos presentes nos terreiros foram incorporados ao espaço cotidiano das procissões, do samba de roda, do maracatu, do baião e do carnaval, constituindo as raízes da música popular brasileira. Dirigido por Henrique Duarte, o filme terá sua pré-estreia entre os dias 19 e 26 de maio, nos terreiros do Gantois, Afonjá e Omorossí, e na Fundação Pierre Verger. Com entrada gratuita e aberto ao público, os eventos têm expectativa de receber 700 pessoas para assistir ao documentário que apresenta os ritmos, cantigas, ritos e tradições do candomblé.
O longa-metragem é composto por imagens captadas em festas dedicadas aos Orixás, performances de dança, apresentações ao vivo e entrevistas com pais de santo, etnomusicólogos, estudiosos da religião e artistas da cena baiana, que trazem elementos e referências da religião no seu trabalho, como o músico remanescente do lendário grupo Os Tincoãs, Mateus Aleluia, o alabê e percussionista Gabi Guedes, o maestro das Orkestra Rumpilezz, Letieres Leite, e o cantor e compositor Gerônimo Santana. Após a exibição, haverá um debate sobre a temática, com a presença de participantes do filme.
O documentário acompanhou também a trajetória de Iuri Passos, professor do projeto social Rum Alagbê, que ensina atabaque a jovens da comunidade do terreiro do Gantois. Iuri é o primeiro alabê a conquistar o título de mestre em etnomusicologia pela UFBA, onde atualmente leciona a disciplina Ritmos Afro Baianos.
Orin é o nome iorubá dado às cantigas que fazem a comunicação entre o mundo material e espiritual. “Foi essa simbiose entre a música tocada nos terreiros de candomblé, a mitologia e a dança dos Orixás, que me chamou atenção em 2014. Desde então, eu mergulhei no universo percussivo do candomblé, participei das aulas de atabaque do Rum Alagbê e percebi a necessidade desse tema ser difundido como forma de romper preconceitos, valorizar e promover essa cultura ancestral que ajudou a construir nossa identidade”, explica Duarte.
As músicas no candomblé são orações cantadas e têm a responsabilidade de louvar os deuses e manter vivos os costumes. Na medida em que o conhecimento é transmitido de forma oral, suas cantigas funcionam como uma memória viva das tradições, narrando histórias e mitos. “A relação do culto com a música no candomblé é fundamental. Sem a música, sem o canto, sem os toques e sem a dança, o candomblé não existe, sobram apenas os dogmas”, salienta Mateus Aleluia.
Durante a pesquisa, Duarte identificou mais de quinze ritmos diferentes, sendo alguns deles específicos para cada Orixá. O Opanijé, por exemplo, é tocado para Omolu, o Agueré para Oxóssi e o Ibi para Oxalá. Já o Ijexáe o Vassi são tocados para diversas entidades. Os entrevistados explicam que os versos e as frases rítmicas, repetidos sucessivamente, têm o poder de criar uma ponte entre o mundo físico e o sobrenatural, induzindo ao transe. Nesse sentido, os alabês têm um papel fundamental dentro do culto, uma vez que são os músicos responsáveis pelos toques que convocam os deuses.
Tudo acontece sob as batidas do agogô, ou gã, e três atabaques de diferentes tamanhos chamados rum, rumpi e lé, do maior para o menor sucessivamente. Esses instrumentos fazem soar o toque responsável pela convocação dos deuses. O gã é responsável por tocar as células rítmicas, o rumpi e o lé mantêm a base, que se repete ciclicamente, enquanto o rum funciona como solista, fazendo as variações que marcam os passos da dança do Orixá. Em alguns terreiros utiliza-se também o xequerê.
Esses instrumentos percussivos e os ritmos tocados por eles estão fortemente presentes na música popular brasileira. Gêneros que vão desde o samba e o baião até os mais recentes, como axé music e funk carioca, têm origem em células rítmicas vindas dos terreiros. Segundo Letieres Leite, “a maioria dos sambas seguem a mesma métrica na sua menor porção. Essa célula fundamental, que gerou os mais de duzentos subgêneros de samba, tem origem num ritmo de candomblé da nação angola, chamado Cabila”.
Após a pré-estreia o documentário deve circular nos festivais nacionais, ocupando a grade das TVs públicas no ano que vem. Orin: música para os Orixás foi financiado pelo edital Arte Todo Dia, da Fundação Gregório de Matos.
SERVIÇO:
Pré-estreia do documentário Orin: música para os Orixás
19/05, às 18h, no Terreiro do Gantois
23/05, às 10h, no Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá
24/05, às 19h, na Fundação Pierre Verger
27/05, às 16h, no Terreiro Ilê Axé Inginoquê Omorossí

Nenhum comentário:
Postar um comentário