Foto: Caio Lírio
A Sala do Coro do Teatro Castro Alves será palco do Me Brega, Baile!, espetáculo de dança produzido pelo Casa 4, que estreia em curta temporada nos dias 28, 29 e 30 de Junho, às 20h, com ingressos a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia) – venda antecipada nas Bilheterias do SAC ou pela plataforma da Ingresso Rápido. Cinco bailarinos intérpretes-criadores homossexuais utilizam a dança de salão como discurso político para reivindicarem a liberdade de serem e de existirem.
Com direção e provocação coreográfica de Leandro Oliveira (ex-bailarino do Balé do TCA, de 2014 a 2018), o espetáculo questiona a heteronormatividade com padrão de comportamento nas danças de salão e propõe outras possibilidades de se pensar e praticar as danças a dois. Para isso, transforma o adjetivo “brega” em verbo e convida o “baile” - e por que não o espectador? - a deixar de ser tão conservador para se entregar à breguice, ao excesso, ao dramático, ao cafona.
Em quase todas as definições, a palavra Brega ganha conotações pejorativas. O dicionário Michaelis define como aquilo que é “de mau gosto, de qualidade inferior, chinfrim, medíocre, vulgar, kitsch”. No Nordeste, “Brega” é um termo utilizado em referência aos puteiros. No Brasil é um movimento musical em que os sentimentos são exacerbados, sem pudores.
“Me Brega, Baile! é um apelo para que nos deixem ser aquilo que queremos. Nos deixem ser bregas! Nos deixem usar salto, saia, brilho, paetê, vestido; dançar do jeito que a gente quiser, com quem a gente quiser, em qualquer ambiente, sem julgamentos, sem conservadorismo, sem amarras”, declara Guilherme Fraga, bailarino-intérprete de Me Brega, Baile! e integrante do Casa 4, que está em cena com Alisson George, Jônatas Raine, Marcelo Galvão e Ruan Wills.
As coreografias surgem a partir de temáticas sócio-políticas e vivências cotidianas dos bailarinos, que os levaram a pesquisar e a propor movimentos. Os bailarinos-intérpretes Ruan Wills e Jonatas Raine, por exemplo, expressam a dificuldade da relação afetiva entre homens gays negros em uma das cenas. “Somos os únicos corpos negros neste espetáculo e queremos discutir afetividade, empoderamento e reconhecimento da beleza preta”, pontua Wills.
O II Encontro Contemporâneo de Dança de Salão, realizado em 2018 em São Paulo, foi um dos eventos que disparou a criação de Me Brega, Baile!. Nele, o Casa 4 apresentou o espetáculo Salão e ministrou uma oficina. Nos chamados “bailes contemporâneos de dança de salão”, que ocorreram nos dias do evento, os bailarinos exploraram possibilidades de dançar juntos sem os formalismos dos bailes tradicionais, em proposições abertas ao jogo e à improvisação.
A participarão do Casa 4 no Mova-se Festival (AM) também foi propulsora para a criação de Me Brega, Baile!. Após apresentarem Salão, primeira montagem da Casa 4 para mais de 700 pessoas, o evento recebeu um ação judicial movida por um grupo de pessoas que considerou que a montagem não deveria possuir classificação indicativa livre, devido aos "gestos obscenos" feitos pelos bailarinos.
Para o Casa 4, a ação se deu pelo fato dos bailarinos serem gays “e defendermos nossa existência, nosso jeito de ser!”. “Fomos pesquisar e achamos obras nacionais com cenas de caráter similar, porém realizadas por um homem cis e uma mulher cis. Resultado: a classificação destes trabalhos permanece livre”, refuta Guilherme Fraga, ao acrescentar que o acontecimento influenciou uma das cenas de Me Brega, Baile!, em que a plateia poderá assistir “a nossa visão dos fatos”.
O Casa 4 busca defender e exaltar a diversidade, o diferente, a liberdade de existir do jeito e da forma que se quer. “A breguice é o caminho que escolhemos para reafirmar o nosso lugar no mundo: viva o que é tido como ridículo, feio; viva o mau gosto, viva o brega! Me Brega, Baile! é um movimento dançante em prol da liberdade de ser e de existir em qualquer ambiente!”, manifesta Fraga.
Musicalidade
Em Me Brega, Baile!, o público pode esperar uma diversidade de sonoridades: da música disco ao forró nordestino, que recria sucessos internacionais de forma brilhante – e brega! Clássicos nacionais e internacionais das décadas de 70 e 80 ganham destaque na trilha sonora. Estas músicas, por sua vez, reúnem a carga dramática e o sentimentalismo exacerbado deste gênero musical. Foram excluídas canções e artistas assumidamente lgbtfóbicos.
Em um processo horizontal de criação, os bailarinos trouxeram propostas musicais a partir de seus anseios individuais. Guilherme Fraga sempre desejou dançar a música I Will Survive, considerado até hoje um hino dos gays e que, em um momento dos casamentos, bailes de formatura e etc, as pessoas se permitem ser bregas, enviadecer, ainda que de um jeito caricato, estereotipado, passível de críticas.
Através do livro Nós duas: As representações LGBT na canção brasileira, de Renato Gonçalves, que pesquisa a representatividade LGBT na MPB, os integrantes da Casa 4 chegaram a outras música nacionais que exploram a temática LGBT em suas letras. Outra coreografia surge do desejo mútuo de Jônatas Raine e Alisson George de dançarem juntos.
A partir do material e das questões levantadas pelos bailarinos-intérpretes, o diretor Leandro Oliveira assume o lugar de provocador cênico e coreográfico, propondo partituras de movimento e composição de cenas. “As minhas proposições buscaram potencializar os discursos levantados pelos bailarinos criadores e intérpretes, em que considerei o ritmo, a ambientação e a configuração espacial para conduzir o olhar do público”, descreve Oliveira.
Casa 4
O Casa 4 nasce das inquietações do bailarino Marcelo Galvão a respeito do ser gay na dança de salão, um ambiente que recrimina principalmente os dançarinos que não seguem as normas – como viados que dão “pinta”. Ao se assumir gay e passar pela Escola de Dança da UFBA, começa a questionar este padrão e a propor outras possibilidades de se pensar e praticar as danças a dois – o que foi muito mal visto pela comunidade da dança de salão de Salvador.
O estopim para a criação do Casa 4 foi um áudio enviado erroneamente para um grupo do WhatsApp de Dança de Salão de Salvador. Neste áudio, uma pessoa fazia comentários maldosos a Alisson George, um dos integrantes do Coletivo, criticando sua postura “afeminada” nos bailes, bem como sua dificuldade em ser condutor, em detrimento de sua parceira que era masculina e não sabia ser conduzida.
Diante desta situação, Marcelo decidiu criar um coletivo composto somente por homens gays com experiência nas danças de salão. Assim, ele reuniu Alisson George, Jônatas Raine e Guilherme Fraga para pesquisarem como as danças a dois se davam em seus corpos viados, quais questões surgiam, quais sensações, vontades. A partir destas pesquisas surge Salão, primeiro espetáculo do coletivo, dirigido também por Leandro de Oliveira.
O nome Casa 4, por sua vez, refere-se aos ensaios que por um bom tempo foram na sala da casa de Jônatas. Logo após a estreia de Salão em Salvador (2017), Marcelo Galvão partiu para um intercâmbio. Ruan Wills o substitui. Salão circulou por Belo horizonte, Salvador, Recife, São Paulo e Manaus. Num clássico “O bom filho a casa retorna”, a chegada de Marcelo Galvão no Brasil culmina na vontade de fazer um novo espetáculo., Me Brega, Baile!.
Serviço
O quê? Me Brega, Baile!
Quando? 28, 29 e 30 de junho, às 20h
Onde? Sala do Coro do Teatro Castro Alves
Ingresso? R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia) – venda antecipada nas Bilheterias do SAC ou pela plataforma da Ingresso Rápido
Ficha técnica - Me Brega, Baile!
Direção: Leandro de Oliveira
Intérpretes-criadores: Alisson George, Guilherme Fraga, Jônatas Raine, Marcelo Galvão e Ruan Wills.
Assistente de Coreografia: Bárbara Barbará
Iluminação: Juliana Mendonça e Leandro de Oliveira
Figurino: Rainha Loulou Couture e Leandro de Oliveira
Comunicação: Théâtre Comunicação – Rafael Britto
Produção: Guilherme Fraga e Marcelo Galvão
Foto: Caio Lírio
Vídeo: Thiago Castro
Edição de vídeo: Raul Lima e Gustavo Miranda
Colaboração coreográfica: Roxy Sanchez
Apoio: Rainha Loulou Couture, Physio Pilates Centro Master Ondina, Casa Charriot, Espaço Xisto Bahia, Escola de Dança da FUNCEB, Escola Contemporânea de Dança

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