07/01/2014

Conselho de Cultura destaca ação do Terreiro Ilê Asìpá em 2014


Fotos: Rafael Martins / Ascom CEC / Kau Muniz

“Peço permissão aos ancestrais e guias velhos pra falar de Mestre Didi, um homem que soube transmitir com muita sabedoria a ancestralidade afro-brasileira, como um griô de tradição oral”. Com essas palavras, o presidente do Conselho Estadual de Cultura da Bahia (CEC) e do Fórum Nacional dos Conselhos Estaduais de Cultura (ConECta), Márcio Caires, comenta as oficinas que marcam o início da programação artístico-cultural/2014 do renomado Terreiro Ilê Asìpá, fundado pelo Mestre Didi (1917-2013).


As oficinas do Projeto ‘Ilê Asìpá: Atabaques entre as Folhas’ acontecem a partir do próximo dia 11, e durante as 10 semanas seguintes, sempre aos sábados pela manhã. A atividade formativa é gratuita, visa qualificar e divulgar o universo afro-baiano das tradições Kêtu. Os participantes aprenderão toques, cânticos, mitos e ensinamentos no contexto dos mestres alabês, que são os responsáveis no terreiro pelos toques rituais, conservação e preservação dos instrumentos musicais sagrados.

“Vejo com bons olhos um projeto de iniciação cultural e musical no terreiro fundado pelo Mestre Didi. Um legado foi deixado e cabe ao poder público buscar meios de fortalecer ainda mais todo o trabalho feito por esse cidadão que jamais será esquecido”, diz o presidente do CEC, Márcio Caires. O projeto foi vencedor do edital nº25/2012, na categoria de Culturas Identitárias da Secretaria de Cultura do Estado (SecultBA), com recursos do Fundo de Cultura.

MEMÓRIA – Para o presidente do CEC, “cuidar da memória passa também por ações focadas nas novas gerações, orientadas para uma ação política e questionadora em suas comunidades”, comenta Márcio Caires. O projeto ‘Atabaque entre as Folhas’ funciona como um instrumento de proteção e disseminação da cultura afro-baiana promovida por comunidades ligadas aos terreiros de candomblé, neste caso de ojés do Ilê Asìpá e alabês do Ilé Opô Afonjá.

Criado em 1967 e completando 45 anos em 2013 – já que só começou a atuar em 1968 – o CEC é a mais alta instância consultiva da Cultura na Bahia. É integrado por 30 conselheiros das áreas mais representativas da cultura baiana, indicados por relevantes serviços prestados à Cultura e nomeados pelo governador do Estado.

No Conselho existem cinco câmaras temáticas que atuam sobre produção cultural contemporânea, articulação e integração, política sociocultural, além do patrimônio histórico, artístico, arqueológico e natural. Esta última câmara analisará o dossiê – ainda em elaboração pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (Ipac) – que poderá registrar oficialmente o Ilé Asipá como ‘Bem Cultural da Bahia’.

O coordenador do projeto ‘Atabaque entre Folhas’, Jurandy Souza, alerta que as inscrições ficam abertas até dia 11, via e-mail (atabaquesentreasfolhas@gmail.com) ou presencialmente, no terreiro, localizado na Avenida Orlando Gomes, entrada em frente ao Cimatec/Senai, Rua Asìpá, bairro de Piatã. As oficinas terão duas turmas de 30 alunos cada, com quatro horas de duração, a cada sábado, durante 10 semanas. Uma das turmas será para iniciantes e a outra para alabês e pessoas da comunidade afro-baiana, com formação musical inicial.

As origens do Ilê Asìpá – voltado ao culto dos ancestrais (Egúnsgúns) – remontam à primeira metade do século XIX, quando foi fundado, por Marcos, o Velho, o Terreiro de Mocambo, na Ilha de Itaparica, Baía de Todos os Santos. Informações via telefone (71) 3117-5377 e endereço eletrônico atabaquesentreasfolhas@gmail.com.

O projeto pode ser acompanhado por meio do Facebook ‘Ilê Asìpá: Atabaques entre as Folhas’. Um vídeo explicativo está à disposição no Youtube (clique aqui e acesse).

MESTRE DIDI – Em sua dissertação de mestrado, o conselheiro de cultura Jaime Sodré afirmou que um dos méritos do Mestre Didi foi a capacidade de inovar com criações estéticas, o que o classifica como um sacerdote-artista. O conselheiro assinala que Mestre Didi era um “exímio artesão da tradição africana na confecção de objetos sacros, como xaxarás e ibiris”, além da produção de magníficas esculturas.

“Habitando em uma ambiência estética na comunidade dos terreiros, Mestre Didi reelabora este conhecimento estético, de original expressão artística, com matéria-prima específica, cores e formas, pertinentes à cosmogonia religiosa afro-brasileira, e começa a expor no Brasil e no mundo, como um representante, como diz Muniz Sodré, ‘da comunidade litúrgico-cultural’ na condição de alapini e assogbá, ou seja, um sacerdote-artista”.

Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, foi sacerdote, artista e escritor. Filho de Arsenio dos Santos, que pertencia à elite dos alfaiates da Bahia, e de Maria Bibiana do Espírito Santo, mais conhecida como Mãe Senhora, Mestre Didi é descendente da tradicional família Asipá, originária de Oyó e Ketu, importantes cidades do império Yorubá, na África.

Sua trisavó, Marcelina da Silva, Oba Tossi, foi uma das fundadoras da primeira casa de tradição nagô de candomblé na Bahia, o Ilê Asé Airá Intile, depois Ilê Iya Nassô, a famosa Casa Branca, considerada um dos primeiros terreiros do Brasil, sendo o primeiro a ser reconhecido pelo Governo Federal, via IPHAN/MinC, como Monumento Cultural do Brasil. Eugenia Ana dos Santos – Mãe Aninha do Ilê Axé Opô Afonjá, tratada por Didi como avó, foi quem o iniciou no culto aos Orixás e lhe deu o título de Assogba, Supremo Sacerdote do Culto de Obaluaiyê.

Iniciado no culto aos Egun aos oito anos de idade pelo filho de Marcos o Velho, Marcos Theodoro Pimentel, Mestre Didi teve sua formação continuada com Arsenio Ferreira dos Santos, sobrinho de Marcos Theodoro Pimentel, o Alapini, primeiro mestre de Didi no Culto aos Egun. A tradição é originária de Oyó, capital do império Yorubá. A herança de Marcos Alapini, para seu sobrinho Arsenio Alagba passou para Didi, Ojé Korikowe Olukotun. Mais tarde Didi recebeu o título de Alapini, o mais alto do Culto aos Egun, e anos depois, em 1980, fundou o Ilê Asìpá onde é cultuado o Baba Olukotun e demais Eguns desta tradição antiga.

Em setembro de 1970, não tendo no Brasil quem pudesse fazer sua confirmação de Balé Xangô, foi para Oyó e realiza a obrigação na cidade originária do culto à Xangô. A cerimônia foi realizada pelo Balé Sàngó e o Otun Balé do reino de Xangô de Oyó. Mestre Didi tem título de Alapini (sacerdote maior no culto aos Eguns), Assogbá (sacerdote supremo do culto a Obaluaiyê) no Ilê Axé Opô Afonjá, zelador do culto à Ossayin, Balé de Xangô confirmado pelo Rei de Oyó (1970) e o de Baba Mogbá Oga Oni Xangô pelo Rei de Ketu (1983), ambos na África.

SERVIÇO

O quê: inscrições para Projeto ‘Ilê Asìpá: Atabaques entre as Folhas’.

Como: via e-mail atabaquesentreasfolhas@gmail.com

Onde: no Terreiro Ilê Asìpá. Bairro da Paz, com acesso pela Avenida Orlando Gomes, entrada em frente ao Cimatec/Senai, pela Rua Asìpá.

Quando: inscrições até o dia de início – 18 de janeiro. As oficinas acontecem sempre nas manhãs de sábado, durante quatro horas cada sábado, por um período de 10 semanas.

Com certificados.
Apoio financeiro: Governo do Estado, via Secretaria de Cultura e Fundo de Cultura.

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