17/12/2013

E O SILÊNCIO NAGÔ CALOU EM MIM” RETRATA COTIDIANO RITUAL DE MATRIZ AFRICANA NO BRASIL


Fotos: Denise Camargo.

· Fotografias da premiada Denise Camargo ocupam o Centro Cultural Correios, a partir de 19/12

· Projeto inclui textos, trilha sonora composta especialmente para a exposição, vídeo e ambiente interativo

· Mostra tem curadoria de Diógenes Moura e desconstrói estereótipos atribuídos à herança afro-brasileira

Os instantes eternizados pela fotógrafa e pesquisadora premiada Denise Camargo nas imagens da exposição E o Silêncio Nagô Calou em Mim alforriam as crenças e tradições africanas sufocadas no preconceito de uma nação que insiste em negar ou desconhecer traços indeléveis de suas próprias raízes. Em cartaz no Centro Cultural Correios a partir do dia 19 de dezembro de 2013, a mostra traz imagens acompanhadas de textos, trilha sonora composta especialmente para o projeto, vídeo e um ambiente interativo.


As lentes de Denise focam a cultura afro-brasileira ao entrar no espaço mítico-ritual do candomblé, revelando o processo de criação da artista no território sagrado dos ritos. “Parti da premissa que o território sagrado das cerimônias de candomblé é um espaço de experiência, de imersão cultural, de contemplação e respeito ao acervo de saberes”, detalha ela, que recebeu o Prêmio Palmares em 2012, para publicação da tese Imagética do candomblé, uma criação no espaço mítico-ritual e o Prêmio Brasil Fotografia – Bolsa para desenvolvimento de projeto, este ano.


O resultado do trabalho surpreendeu até a própria fotógrafa, que sempre pensou em tirar o tema do lugar comum. “Em geral, o que se fotografa são os rituais públicos, que são lindos. Mas a minha proposta é reflexo de uma convivência, um mergulho, uma permissão. Quis acrescentar algo àqueles que não conhecem o candomblé e lancei mão de uma luz singular para não tornar o registro fotográfico tão óbvio”, observa Denise.

A curadoria de E o Silêncio Nagô... é de Diógenes Moura, escritor, editor, roteirista e curador de fotografia da Pinacoteca do Estado de São Paulo entre 1998 e maio de 2013. Moura endossa que a exposição reforça o debate contemporâneo sobre a diversidade étnica e cultural do Brasil como um patrimônio imaterial, desconstruindo visões errôneas e estereotipadas, tão recorrentes, sobre a realidade afro-brasileira.

Segundo o curador, a mostra promove uma ruptura das percepções equivocadas dos terreiros, difundidas, entre outros fatores, pelo estigma brasileiro de não buscar entender suas próprias raízes. “E o Silêncio Nagô trata do silêncio profundo diante do desconhecido, do que poderá ir do ontem ao muito além, desse corpo índio e africano que temos obrigação em reconhecer, que somos nós, sem abortar Macunaíma”, pondera.

Diógenes enfatiza que a coletânea de Denise é a revelação das coisas que nos pertencem, do que temos direito, do que somos nós. “Trata da existência dos que não gostam de mentir, dos que assumem o próprio rosto. Dos que não têm medo de seguir adiante como possuidores de uma humanidade distinta, de uma protocélula impregnada de mitos que dançam dentro do nosso corpo/memória insistindo em nos fazer despertar”, adianta.

Silenciando a exclusão

E o Silêncio Nagô... , que chega a Salvador depois de ficar em cartaz com sucesso em Brasília, coloca em circulação, de maneira inédita, ideias sobre um objeto artístico geralmente renegado à invisibilidade. É uma exposição enriquecedora tanto em seu conteúdo quanto na forma de proporcionar a aquisição de conhecimento.

Acessível aos deficientes visuais e ao público de todas as camadas sociais, a coletânea alia tecnologia e arte em um só espaço. Além das imagens, da trilha sonora, de palestras da artista e de convidados, de oficina de formação para educadores, o projeto contempla sinalização podotátil que auxiliará a visita de cegos. Eles receberão na entrada da sala um aparelho com audiodescrição das imagens, garantindo total autonomia durante o percurso expositivo. “Meu registro será imaginado por eles. É uma troca interessantíssima e enriquecedora para os dois lados”, empolga-se Denise.

Para a artista, proporcionar acessibilidade ao espaço expositivo e facilitar o acesso à arte é viabilizar um aspecto da democratização social. “O Brasil tem diretrizes de acessibilidade e os artistas e produtores devem se preocupar em cumpri-las”, frisa ela, referindo-se à Lei nº 10.098/2000.

Fabiane Beneti, da Empresa Livre, assina a produção-executiva do projeto, que é patrocinado pelos CORREIOS e realizado pelo Ministério da Cultura, por meio da Lei de Incentivo à Cultura do Governo Federal. E o Silêncio Nagô... tem apoio do Centro Cultural dos Correios em Salvador – BA, onde a exposição faz itinerância, de 19 de dezembro de 2013 a 22 de fevereiro de 2014.

Exposição – E o Silêncio Nagô Calou em Mim

Data: 19 de dezembro 2013 até 22 de fevereiro de 2014

Local: Centro Cultural Correios

Horário: segunda à sexta-feira, das 10h às 18h e sábados das 8h às 12h

Endereço: Travessa Cruzeiro de São Francisco, nº 20 – Pelourinho, esquina com Rua Inácio Acioli

Entrada gratuita

Agendamento de visitas para escolas e informações: oju.cultural@gmail.com

www.silencionago.oju.net.br

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