terça-feira, 18 de abril de 2017

Exu – A Boca do Universo retorna a capital baiana e abre os caminhos para o projeto OROAFROBUMERANGUE do NATA

Foto: Andrea Magnoni.
Espetáculo de maior projeção do Núcleo Afro Brasileiro de Teatro de Alagoinhas fica quatro dias de maio em cartaz no Teatro Gregório de Matos


Laroiê, Exu.
“Qual Exu você conhece?”.
“Exu é um orixá de uma potência e de uma relevância muito importante. É o único que vê a face de Olodumare (o criador). E o único mensageiro entre o Àyê (plano da materialidade) e o Órun (mundo espiritual). Exu é o movimento de rotação e translação. Sem Exu, não tem nada, não tem comunicação. Ele é o grande fiscalizador”, explica Fernanda Júlia Onisajê, pesquisadora e diretora do espetáculo Exu – A Boca do Universo.
Agradecer a Exu pelas conquistas e num pedido para que continue a abrir os caminhos, o Núcleo Afro Brasileiro de Teatro de Alagoinhas – NATA retorna com Exu – A Boca do Universo, de 04 a 07 de maio, às 20h, no Teatro Gregório de Matos. O espetáculo, que já rodou mais de 30 cidades brasileiras pelo Palco Giratório do Sesc 2015, traz cinco qualidades/características dentro do universo que é esta divindade e alguns itan – palavra em ioruba que significa lendas, histórias e mitos.
As apresentações dão início as ações do projeto de manutenção OROAFROBUMERANGUE, que serão realizadas em 2017 e 2018, nos municípios de Alagoinhas e Salvador, através do edital de manutenção e coletivos da SECULTA/BA. “Traremos uma discussão importantíssima para o repertório do NATA: o empoderamento da mulher negra. Tudo que produzirmos em 2017 e 2018 vai reverberar na montagem do nosso novo espetáculo Oxum, com previsão de estreia em outubro do ano que vem”, destaca Onisajé.
Serão realizadas oficinas para comunidade de Alagoinhas, duas edições do IPADÊ – Fórum NATA de Africanidade (Alagoinhas e Salvador), apresentações de Exu – A Boca do Universo (Salvador), temporadas do projeto Natas em Solos - Seis Olhares Sobre o Mundo (Alagoinhas e Salvador), manutenção e montagem do espetáculo Oxum. “Teremos ainda nas duas cidades a realização do Sarau Noites Afro-Poéticas e, em janeiro de 2018, a volta de Sire Obá”, ressalta Susan Kalik, que é diretora da Modupé Produtora, empresa responsável pela produção do NATA.
Espetáculo
Exu é o “infinito e mais um”. Um ato de desmistificação e celebração, a dramaturgia lírica de Daniel Arcades – que também está em cena no espetáculo - apresenta Yangui, o primeiro indivíduo a ser criado por Olodumare – o grande Deus, pois Exu é o primeiro de todos os indivíduos que habitam o Aiyê; tem Exu Enugbarijô, o grande comunicador e que está ligado aos prazeres obtidos através da oralidade.
Assistimos ainda a famosa alusão sexual deste orixá, Exu Legbá, que também representa o poder, a liberdade e a sexualidade. Onisajé nos antecipou que Exu é o orixá de rotação e translação, este é Exu Bará, aquele que rege os movimentos do corpo, que está dentro dos seres vivos. “Ele é o movimento de rotação, gira em torno de si mesmo; e o de translação, que gira em torno de algo maior. No caso da terra, o sol”, exemplifica Onisajé.
Possivelmente, Exu é dentro de todos os orixás o que mais sofre de intolerância religiosa, por isso, através de um longo processo de pesquisa Arcades e Onisajé chegaram ao babalorixá Rychelmy Imbiriba, do Ilê Axé Ojissé Olodumare, filho de Exu, que dentro de inúmeros itan contou a respeito do amor de Exu por Oxum.  “Como pode ser do mal alguém que ama?”, questiona Onisajé. Fruto desse amor nasce Oseturá, o Exu mais novo, também presente no espetáculo do NATA.
Dramaturgia
Na construção dessa trama, Daniel Arcades e Fernanda Júlia Onisajé atuaram conjuntamente. “Ela assumiu a posição iaquequerê (mãe pequena), ou seja, de conhecedora da cultura do candomblé, e do que poderia ou não ser público. Uma grande provocadora, trazia sugestões de itan e orikis (poesias). Eu assumia um lado mais sociológico e lírico na dramaturgia. Não queremos fazer catequese. O espetáculo é uma celebração da vida”, conta Arcades.
De acordo com OnisajéExu – A Boca do Universo é o espetáculo que o grupo percebe uma maior conscientização dos princípios e procedimentos que geram o processo criativo do NATA. “Conseguimos equilibrar de uma forma mais consciente o diálogo entre teatro e candomblé na cena. Sire Obá, obra anterior, é extremamente ritualístico, os elementos do candomblé falam de uma forma muito maior. Em Exu – A Boca do Universo, temos um espetáculo ritualístico, mas ao mesmo tempo pop, cênico e super teatral”, explica.
Onisajé confirma que assume muitas vezes no NATA uma função religiosa, sacerdotisa. “Por eu ter um pouco mais de estrada no candomblé. Por isso, entro como co-autora em Exu. Eu e ‘Dan’ pesquisamos juntos, fizemos escaletas de cena a cena. Como sacerdotisa revisei o texto, sugeri cenas, mas a dramaturgia é de Daniel Arcades”, ressalta.
Ela acrescenta que é em Exu – A Boca do Universo que inicia o processo criativo de composição de personagem. “Trabalhamos com os estudos de personalidades, que é o alinhamento entre a personalidade do ator e o arquétipo do orixá. Esse é um princípio que gera o trabalho de criação para cena. No caso de Exu, tínhamos cinco qualidades para darmos conta. Exu é um universo, não é um espetáculo que vai dar conta dele”.
A montagem narra sem compromisso cronológico momentos em que Exu se mostra diferente daquilo que tanto se pregou na cultura ocidental e o apresenta como celebrador da vida e da comunicação. “Trazemos também outras qualidades deste grande orixá, pois com o estudo de personagens queríamos dar conta das individualidades dos atores que estão ali presentes. Essa foi a concepção que pautou o texto e a encenação de Fernanda Júlia”, pontua Daniel Arcades.
Os integrantes do NATA declaram que Exu é um mosaico de arte e artistas que teceram essa trama. “Uma das funções do encenador é essa figura de maestro. Graças a Exu, tínhamos uma dinâmica e profissionais incríveis. Nele, ocorre a horizontalização do processo artístico. É o espetáculo que amadurecemos o processo criativo do grupo. Eu encenei e os atores interpretaram com mais consciência”, realça Onisajê, ao recordar que o espetáculo é a 19ª montagem do TCA Núcleo do Teatro Castro Alves, uma experiência de ocupação artística e intercâmbio.
Processo criativo
Durante o período de montagem a dramaturgia de Arcades dialogou com o processo de direção, mais a atuação de cada um dos atores, mais a música de Jarbas Bittencourt, mais a direção de arte de Thiago Romero – que assume cenário, figurino e maquiagem, mais a coreografia de Zebrinha, que prepara corporalmente e traz a dança dos orixás, principalmente, as ligadas a Exu.
Zebrinha incorpora ao NATA a concepção de que corpo negro é um corpo operístico. “Um corpo extremamente complexo. Um corpo negro que dança, canta e atua. Ele traz para gente a entendimento de que um corpo negro traduz a sua ancestralidade. Um corpo negro em cena não é um indivíduo, ele é um conjunto de pessoas”, pontua Onisajê.
As cores vivas e vibrantes do figurino e a maquiagem concebidos por Thiago Romero partem do processo de pesquisa das vestimentas e maquiagens utilizadas por algumas comunidades africanas como os L´omoSurma, Mursi, Hamer, Himba, Ndebele Arbore e também na visualidade das indumentárias do Orixá Exu nas Comunidades de Axé da Bahia e do Brasil. Romero traz para Exu – A Boca do Universo a concepção do corpo como tela.
De acordo com a diretora, o ator Antônio Marcelo, além de atuar, tem um entendimento da intracena. “Desse texto acamado, do processo de encenação, desse tecido invisível, da criação e composição do ator na cena. É ele que sempre vem: ‘tem certeza que a melhor marca é essa?’”.
A luz que acentua e instala o jogo e as atmosferas da cena, são de Nando Zâmbia, que também é ator e coordenador técnico do NATA. A música de Jarbas Bittencourt provoca um trânsito entre o Ayê e o Órun. Fabiola Nansurè atuou como atriz. É ela que interpreta Oxum, a yabá que encanta os olhos e o coração de Exu.
“Ela tem uma contribuição da pulsação da cena no que diz respeito as danças dos orixás, que é uma técnica que ela domina”.
Susan Kalik e Francisco Xavier são uma produção ativa. “Não é uma produção preocupação apenas com ‘como pagaremos as contas?’. É uma produção preocupada com o discurso. Vai para além das necessidades da materialização da criação. É uma produção colaborativa, no sentido de se pensar o discurso, os nichos, quais as problematizações disso”, descreve Onisajê.
Sanara Rocha, além de instrumentista do NATA, é uma grande provocadora sonora. “Não consigo criar sem música e ela é a instrumentista do grupo, então criávamos na sala de ensaio muita sonoridade. Improvisamos muito para criarmos atmosféricas cênicas”, relembra Onisajê.

Serviço
O quê: Exu – A Boca do Universo
Onde: Teatro Gregório de Matos
Quando: 04 a 07 de maio, às 19h
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
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